Opinião

Eleições 2018: quais as chances dos principais candidatos?

Escrever sobre eleições que acontecerão em pouco mais de um semestre nesses tempos que o sociólogo Manuel Castells chama de “era da informação” não é uma tarefa simples. A velocidade com a qual certezas são derrubadas pela imprevisibilidade da política brasileira faz com que qualquer texto nesse sentido esteja fadado à superação rápida. Se um trabalho acadêmico já está passível de ser superado – como um professor meu nunca se privou de lembrar a suas turmas – imagine um texto repleto de palpites baseados em suposições e informações incompletas. As coligações e alinhamentos para a eleição vindoura nem sequer se assentaram o suficiente para que possamos bater o martelo sobre a configuração do quadro de candidatos.

No entanto, há de se levar em consideração que alguns prováveis nomes já anunciaram suas candidaturas, ou ao menos expressaram o desejo de competir. E a partir dessas declarações de interesse é possível inferir algumas possibilidades baseadas no histórico político brasileiro, nas manifestações populares, atuação da grande mídia e resultados de pesquisas de intenção de voto. Os nomes sobre os quais dissertaremos aqui são Lula, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Guilherme Boulos e João Amoêdo. As análises serão bastante breves, e há muito mais para se falar sobre cada um dos candidatos do que esse texto dá conta. Ainda assim, esperamos que ele possa contribuir com o debate público a respeito desse assunto.

LULA: UMA MOLA PROPULSORA PARA QUEM?

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A atual inelegibilidade de Lula ao cargo máximo do executivo brasileiro impõe uma situação delicada com a qual a alta cúpula do Partido dos Trabalhadores não consegue lidar, dada a dissidência interna. De um lado, há uma ala que defende a candidatura de Lula com um candidato a vice que, de fato, assumiria a presidência. Lula não poderia assumir o cargo, mas poderia ser a mola propulsora de outro candidato escolhido pelo PT, já que ainda possui muita popularidade – especialmente entre boa parte da população mais pobre do “Brasil profundo”.

Em compensação, outra parcela do partido defende que um candidato do PT forme uma chapa com algum outro candidato sob os auspícios de Lula, que usaria seu capital político para impulsionar a chapa. E o nome mais cotado para essa coligação seria Ciro Gomes. Já se fala em uma dupla Ciro Gomes/Fernando Haddad há algum tempo em ambos os lados dessa conversa, e a hipótese parece cada vez mais plausível. Basta esperar para ver se o PT apostará todas as fichas na volta ao poder pelo poder, ou se usará sua base eleitoral para apoiar outro candidato, dando um passo para trás para no futuro, talvez, dar dois passos à frente. E o apoio de Lula como mobilizador de seu vasto eleitorado será fundamental em qualquer um dos dois cenários.

CIRO GOMES: UMA INCÓGNITA CRESCENTE

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Considerado por muitos a principal alternativa à Lula, e por tantos outros como uma armadilha, Ciro Gomes vem ganhando muito espaço nos últimos meses. Tendo anos de atuação na política como prefeito, deputado, governador e ministro, Ciro vem apresentando discursos que têm feito com que diversos setores da esquerda – especialmente uma esquerda mais reformista e próxima do centro – lhe deem ouvidos. Suas falas públicas, que ressaltam um planejamento nacional-desenvolvimentista a curto e médio prazo, acabam apelando também para alguns setores da direita que se alinham com essa forma de gerenciamento nacional.

No entanto, há muitas dúvidas pairando sobre o candidato. Dentro da esquerda, onde Ciro tem tentado angariar votos nos últimos tempos, permanece uma desconfiança sobre suas intenções. Recentemente o candidato anunciou sua equipe responsável por um plano de governo, e entre eles figura Nelson Marconi, da FGV. Autodeclarado Keynesiano, Marconi levanta suspeitas entre parte da esquerda por algumas falas que teria feito defendendo a diminuição dos salários como uma das medidas de alcance de um superávit primário. Por outro lado, também defende a manutenção e ampliação de gastos com o social mediante o enxugamento do serviço público. Novamente, uma incógnita, levando em conta que essa postura pode trabalhar para projetos bastante diferentes, dependendo de quem setores do funcionalismo público sofreriam os tais cortes.

Outro ponto que causa desconforto em grande parte da esquerda é que Ciro já demonstrou simpatia ao agronegócio, setor esse ferrenhamente atacado pelas esquerdas mais ligadas tanto a questões ambientais quanto à questão agrária. Ou seja: Ciro permanece uma incógnita, e ainda não conseguiu conquistar todos os corações e mentes que poderia, dadas as desconfianças que levanta em potenciais eleitores. Ainda assim, seu nome cresce e há possibilidades de, dependendo de seu desempenho nos debates e da decisão do PT em lhe apoiar ou não, vermos o candidato em um segundo turno.

Pesa a seu favor o discurso de que, em décadas de vida pública, Ciro jamais teria respondido a um processo por corrupção ou qualquer coisa equivalente, mesmo que para ser inocentado. Ainda que devesse ser obrigação de qualquer servidor público – algo que Ciro não se priva de dizer sempre que possível –, a honestidade é uma moeda forte nessa disputa, bastando que o candidato consiga convencer o eleitorado de que você detém esse valor para ganhar alguma atenção.

JAIR BOLSONARO: “MITO OU REALIDADE?”

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O subtítulo do livro sobre Jair Bolsonaro escrito por seu filho vem a calhar para qualquer debate que o envolva, ainda que não necessariamente as conclusões sejam as mesmas para todos os debatedores. Poucos candidatos são tão polarizadores quanto Bolsonaro, que nos últimos anos deixou de ser “apenas” um dos deputados mais votados do Rio de Janeiro para se tornar um dos presidenciáveis com maiores intenções de voto nas pesquisas mais recentes.

No entanto, há dúvidas severas sobre sua capacidade de ter fôlego para encarar uma corrida presidencial. Jogam a seu favor alguns fatores, que tentamos listar abaixo.

Primeiro: ao adotar um discurso mais liberal e abandonar propostas de caráter desenvolvimentista que apresentou no passado, Bolsonaro conseguiu angariar a simpatia de muitos ultraliberais que não veem mais o PSDB como alternativa e que não votam em João Amoêdo por considerá-lo pequeno demais para ter alguma chance.

Segundo: Sua retórica antiesquerda e antipetista, além de sua atitude ríspida e desbocada abocanham uma parcela do eleitorado que tem fascínio por políticos que supostamente “falam a verdade”, e suas falas sem amarras denotariam, para essa parte do eleitorado, uma honestidade que se refletiria em sua atuação na vida pública. Certamente que isso está muito longe de qualquer consenso, mas é fato que parte de seu eleitorado pensa assim.

Terceiro: poucos políticos na política brasileira contemporânea têm um séquito de seguidores tão fanáticos quando Jair Bolsonaro, dispostos a tudo para defender seu candidato. Páginas, canais de YouTube e perfis de redes sociais de maior projeção que o criticam não raro são vítimas de ataques em massa por parte dos seguidores do deputado. Esse séquito é um eleitorado fiel que dificilmente seria perdido.

Por outro lado, há alguns fatores que jogam contra sua candidatura.

Primeiro: mais de uma vez, o candidato mostrou um despreparo evidente para lidar com as questões mais fundamentais com as quais qualquer um presidente teria que lidar. Há vídeos disponíveis pela Internet onde o candidato basicamente se recusa a falar de economia, e muito se ridiculariza a incapacidade de Bolsonaro em lidar com o tema, que na atual conjuntura é de importância fundamental para o Brasil. Em situações onde precisou dissertar sobre segurança e saúde, suas performances não foram melhores. Muito se especula que o candidato pode perder grande parte dos potenciais eleitores nos debates à presidência diante de candidatos com maior expertise nos assuntos os quais Bolsonaro não domina.

Segundo: uma série de histórias que vão desde seu irmão funcionário público que recebia sem trabalhar, nepotismo, acumulação duvidosa de propriedades e recebimento de auxílio moradia sem necessidade, minou a autoimagem que Bolsonaro busca vender de candidato íntegro, honesto e diferente dos demais.

Terceiro: Bolsonaro tem um forte potencial de “roubar votos” que tradicionalmente vão para o PSDB. Levando em consideração que o partido sofre uma visível “blindagem midiática” e tem o apoio de alguns dos maiores veículos de mídia do Brasil, já no início desse ano pudemos ver alguns desses veículos divulgando algumas das histórias que colocavam a integridade de Bolsonaro à prova que citamos no item anterior. Há uma percepção de que essa postura continuará, de modo a minar as chances de Bolsonaro e tentar fazer com que o PSDB recupere parte do eleitorado perdido para o deputado.

Quarto: Bolsonaro ainda não conseguiu convencer boa parte do eleitorado liberal de que sua guinada pró-mercado é verdadeira. Pautas como a Reforma da Previdência, sobre a qual o candidato já se posicionou contra em mais de uma fala pública – ou que pelo menos a reforma excluísse os militares dela –, ainda apresentam um entrave no convencimento dessa parcela do eleitorado. Ainda assim, caso o candidato vá para um segundo turno, é bastante provável que esse eleitorado se junte a sua empreitada rumo à presidência, caso a outra candidatura seja considerada mais problemática – mais precisamente seja considerada de esquerda.

GERALDO ALCKMIN: APOIO MIDIÁTICO, IMAGEM DESGASTADA

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Como dito anteriormente, o PSDB conta com o apoio histórico de boa parte da grande mídia brasileira, especialmente de São Paulo, mesmo que eventualmente escândalos envolvendo os maiores nomes do partido ganhem destaque, pois não é possível esconder tudo o tempo todo. É preciso dar pinceladas de “imparcialidade” eventuais para tentar manter uma imagem de idoneidade, ainda que em termos proporcionais esses vislumbres de denúncia sejam escassos e muitas vezes maquiados por uma linguagem menos acusatória.

Comentários sobre a imprensa à parte, já se sabe que o nome mais provável do PSDB à presidência é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Falava-se muito no nome de João Dória no início de 2017, quando sua popularidade era altíssima após uma vitória em primeiro-turno à prefeitura de São Paulo. Durante o ano, rusgas entre os dois políticos surgiram quando Dória ameaçou tentar passar por cima de Alckmin para chegar ao planalto, mas sua queda vertiginosa de popularidade contribuiu para que o governador de São Paulo tomasse a dianteira dentro do partido.

O PSDB é um partido com anos de tradição, dois mandatos presidenciais, forte apoio no congresso e tem o histórico de aglutinar votos da direita brasileira e ser o grande antagonista do PT. Pesa a favor de ambos que os partidos estão em locais moderados da díade direta-esquerda, e a projeção nacional de ambos os partidos sempre acaba atraindo os votos de quem não quer “desperdiçar voto” tentando eleger candidatos considerados “pequenos”.

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No entanto, apesar de o PSDB não ter nenhum político preso pela Lava Jato em quatro anos de investigações – embora seja o quarto em número de políticos investigados – a imagem do partido tem sido associada a uma “mesmice política”, formada por escândalos de corrupção, como o “trensalão” e a “máfia das merendas”, além de acusações de má gestão, como a crise hídrica que se abateu sobre São Paulo. Fora todos esses pontos que se mostram fortes contra o PSDB, conta a favor de Alckmin especialmente seu nome de projeção nacional, o histórico alinhamento de uma tradição temerosa à esquerda aos tucanos (desde as eleições de 1994) e o aglutinamento dos votos de muitos liberais que temem Bolsonaro e querem um candidato com chances de vitória.

MARINA SILVA: A “MENINA DO ACRE” DA CORRIDA PRESIDENCIAL

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São recorrentes na Internet brasileira dois tipos de piadas e memes envolvendo o nome de Marina Silva: os que destacam sua “indecisão” e falta de posicionamento claro sobre temas cujas posições entre esquerda e direita são irreconciliáveis, e os que destacam o fato de que em momentos de esfriamento da disputa pela autopromoção visando o cargo de presidente, Marina costuma desaparecer dos holofotes, sendo até chamada por alguns de “A menina do Acre” por conta dos seus sumiços.

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Fonte: Ativismo Protestante

Independente do seu posicionamento político e preferência entre os presidenciáveis, é fato que boa parte deles mantém uma atuação politica bastante visível. Lula é uma figura que nunca sai dos holofotes – ainda que nem sempre pelos motivos que ele gostaria; Ciro tem viajado o Brasil e investido pesado em sua imagem como alternativa de centro-esquerda; Alckmin é o governador do estado mais populoso do Brasil; Guilherme Boulos, embora seja um novato nessa disputa, tem um histórico de atuação política frequente em redes sociais, colunas e mesmo no MTST (deixamos Amoêdo de fora desse parágrafo porque sua atuação ainda é bastante recente e tímida).

Já Marina Silva se mantém relativamente longe dos debates, salvo casos considerados inevitáveis, como o Impeachment de Dilma Roussef ou uma entrevista de Ciro Gomes onde ele afirmava que Marina, por sua “natureza doce”, talvez não estivesse preparada para o furor político e agressivo que se espera dessas eleições.

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Fonte: Pelo Amor de Deus

Mas apesar disso tudo, Marina foi a terceira candidata mais votada nas eleições de 2014 e sempre aparece com boa projeção de votos nas pesquisas. Sua tentativa de neutralidade, de posar como uma “terceira via” é uma faca de dois gumes: seduz quem enxerga a díade direita-esquerda como ultrapassada e prejudicial, mas afasta tanto quem exige posicionamentos claros quanto quem não compra sua autoimagem centrista, sendo sempre colocada na conta dos opositores de seus críticos.

GUILHERME BOULOS: ALTERNATIVA OU LINHA AUXILIAR?

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A pré-candidatura de Guilherme Boulos à presidência pelo PSOL já nasceu cercada de polêmicas dentro do próprio partido. Boulos tem o apoio de gente como Marcelo Freixo, um dos políticos mais conhecidos do partido, o que lhe dá alguma vantagem com o eleitorado de Freixo e a todos seus admiradores pelo Brasil que torceram por sua vitória sobre Marcelo Crivella nas últimas eleições à prefeitura do Rio de Janeiro. Por outro lado, Boulos é visto como excessivamente simpático a Lula, e essa questão ainda gera muita controvérsia dentro do partido.

O PSOL é um partido que surgiu de uma dissidência interna do PT, fruto de descontentes tanto com os rumos do partido quanto com o que ficou conhecido como “Mensalão”. Colocando-se como à esquerda do Partido dos Trabalhadores, o PSOL intercalou entre o apoio aos candidatos petistas nos segundos-turnos das eleições que se seguiram (seguindo uma lógica de “dos males o menor”), e a crítica ferrenha ao que seria um “entreguismo” do PT a políticas neoliberais, não muito diferentes do PSDB e outros partidos que lhe opõem. O PSOL lutou com unhas e dentes contra o Impeachment de Dilma, ao mesmo tempo em que afirmava que a culpa de tudo o que ocorria naquele momento era do próprio PT e suas coligações em busca de governabilidade.

Ocorre que Boulos é visto por parte do partido como excessivamente simpático a Lula e ao PT. Sua popularidade e tom mais moderado o colocaram como principal escolha do partido, em detrimento de outros possíveis candidatos mais radicais, como Nildo Ouriques, que vinha lutando ferrenhamente para ser o candidato pelo PSOL.

Pesa a seu favor a imagem de o PSOL ser visto como uma “verdadeira alternativa à esquerda” ao PT, já que para grande parte das esquerdas, Ciro Gomes seria um lobo em pele de cordeiro buscando esse eleitorado, mas pronto para traí-lo se eleito. Pesa contra Boulos o fato de que grande parte do eleitorado no PT não vota neste partido por adesão política à esquerda como conceito de distinção política, mas por enxergar o PT como um partido que realmente pensaria no bem estar do povo e dos pobres – fundindo a imagem do partido à figura de Lula. O tamanho modesto do PSOL, as dissidências internas e a associação de Boulos ao MTST – que faz com que ele seja considerado algum tipo de terrorista ou vagabundo por praticamente 100% do eleitorado conservador – também são fatores que nos levam a crer que suas chances são ínfimas.

JOÃO AMOÊDO: ALGO DE NOVO?

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JoãoAmoêdo já se colocou como possível candidato à presidência pelo Partido Novo, do qual foi um dos fundadores. Seus princípios tendem a se alinhar com o discurso neoliberal de diminuição do Estado e do mercado como solução eficiente para as deficiências do serviço público. Conta a seu favor seu alinhamento irrestrito a este discurso que ganhou muitos adeptos nas redes sociais nos últimos anos. Ao contrário de Bolsonaro, que é visto por muitos ultraliberais como um “falso liberal”, e de Alckmin que é jogado no colo da esquerda – jogando no lixo princípios basilares da Ciência Política a partir de princípios economicistas vulgares –, Amoêdo se apresenta como alternativa “ideologicamente pura” para seu nicho de eleitorado, assim como Boulos para as parcelas da esquerda que não odeiam o PSOL.

Contra ele pesam alguns dos mesmos problemas quem minam as chances de Guilherme Boulos. Primeiro: seu partido pequeno e sua inexpressividade na vida pública brasileira (ainda menor que a de Boulos, no que concerne à atenção midiática) fazem dele um azarão, com ínfimas chances de vitória. Em pesquisa divulgada em 31 de janeiro, Amoêdo aparece na casa de 1% de intenções de votos.

Segundo: como dito anteriormente, a direita de matriz liberal brasileira tem seu voto pulverizado entre Alckmin, Bolsonaro e Amoêdo (e ainda há outros nomes não aventados nesse texto, como Henrique Meireles e Álvaro Dias, que poderiam pulverizar ainda mais esse nicho do leitorado). Por nome, tradição e projeção, Alckmin leva boa parte desses votos. Por sua atual popularidade, Bolsonaro leva outro grande filão, especialmente entre os mais conservadores e a extrema-direita. Amoêdo é considerado um azarão, e isso acaba fazendo com que votar nele soe como um “desperdício de voto”, como ocorre com outros candidatos de pequeno porte, contribuindo para a contínua polarização PT versus PSDB.

Terceiro: Amoêdo tem o agravante de não ter absolutamente nenhum apelo com o “Brasil profundo” que não está interessado em discussões “direita versus esquerda”, “público versus privado”, “mais ou menos Estado”, e quer apenas comida na mesa, um trabalho digno e uma promessa de futuro. Especialmente depois dos dois mandatos de Lula, esse eleitorado passou a se identificar com políticas de assistência social e, especialmente, a figura de Lula. Amoêdo, um oposto político a esses elementos, é um candidato feito sobre medida para a classe média – especialmente branca –, e dificilmente teria o apelo popular que um presidenciável precisa para ter alguma chance nas eleições de um país ainda em desenvolvimento como o Brasil. Uma coisa é vencer uma prefeitura com o discurso anti-esquerda e anti-establishment falando em eficiência de gestão, como ocorreu com Dória. Outra coisa é vencer a corrida presidencial.

CONCLUINDO

Essas eleições são consideradas, sem a menor sombra de dúvida ou margem para debate, as mais importantes e dramáticas desde 2018 – com exceção de quem sequer reconhece a democracia representativa como um sistema válido ou quem firmemente acredita que todas as opções à vista são desastrosas. Se nas últimas cinco ou seis eleições era relativamente fácil prever ao menos a configuração de um segundo turno, temos dessa vez um panorama muito mais imprevisível, fruto de um ambiente mais polarizado e fruto de uma ruptura política de grande porte, que foi o Impeachment de Dilma. Se o caso de Fernando Collor foi praticamente um clamor nacional, o caso da ex-presidente foi muito mais complexo divisor de posicionamentos. Além do mais, a inelegibilidade de Lula coloca um novo elemento de dúvida nessa disputa que definira os próximos quatro anos do Brasil. Isso, claro, se o vitorioso ou vitoriosa dessa disputa conseguir governar e permanecer no cargo até o fim do mandato. Em se tratando de Brasil, há um histórico de dificuldades em ambos os casos.